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6 de julho de 2026

Eventos sem celular crescem 567% no mundo: o que isso tem a ensinar para os eventos B2B brasileiros?

Nos últimos meses, uma tendência tem ganhado força nos maiores palcos do entretenimento e do esporte mundial: a política de eventos sem celular. Do Coachella ao Augusta National, marcas e organizadores estão apostando que a ausência do smartphone pode ser exatamente o que transforma uma experiência comum em algo memorável. Mas será que essa lógica se aplica ao universo dos eventos corporativos e B2B? E, mais especificamente, faz sentido no contexto brasileiro?

A resposta não é simples — e é justamente essa complexidade que torna o tema tão relevante para quem produz e estrategiza eventos de negócios.

O que o mundo lá fora está dizendo

Os exemplos que pautaram o debate são emblemáticos. No Masters de golfe de 2025, em Augusta, a política histórica de proibição total de celulares — que vigora há anos — voltou aos holofotes. Os participantes são proibidos de levar celulares para dentro dos grounds do Augusta National durante o torneio, e outros dispositivos eletrônicos como laptops, tablets e rádios também são vetados. O resultado? Em uma era de telas onipresentes e notificações sem fim, o Masters mantém as coisas analógicas. “É tranquilo”, descreveu um participante. “É como acampar. Você vai se desconectando aos poucos.”

A política de proibição de celulares mostrou, ao longo dos anos, o quanto tem sido benéfica para o golfe e para o torneio, tornando a experiência de assistência ao vivo muito melhor para os fãs.

Já no Coachella 2026, a Pinterest protagonizou a primeira ativação completamente sem celular da história do festival. Em um evento famoso justamente por ser palco de criação de conteúdo e cultura de influenciadores, os participantes eram convidados a guardar seus dispositivos em pouches antes de entrar em um ambiente analógico e tátil. Segundo a equipe de produção, os dados da própria Pinterest embasaram a ideia: as buscas por “aesthetic analógico” cresceram 260% e por “dumb phone” (celular básico), 150% — o objetivo era criar uma oportunidade para as pessoas realmente passarem tempo juntas com amigos.

A mudança no comportamento dos participantes foi perceptível quase imediatamente. As pessoas ficavam mais tempo na ativação, deliberavam sobre detalhes, conversavam com estranhos. “Há normalmente um ritmo frenético de ‘capturar e seguir em frente’ no Coachella, e aquilo simplesmente não era assim”, descreveu a produtora responsável.

Os dados reforçam a escala do fenômeno. Segundo dados recentes da Eventbrite, os eventos sem celular cresceram 567% globalmente, com a participação aumentando 913% nos EUA e 1.441% no Reino Unido. Apenas nos primeiros três meses de 2026, esses eventos já alcançaram mais de um terço do volume global do ano anterior.

O celular é mesmo o vilão da atenção?

Antes de responder se eventos sem celular fazem sentido para a sua marca, é necessário compreender o problema a fundo: o celular realmente prejudica a atenção e o engajamento em eventos?

A resposta, amplamente respaldada por pesquisas cognitivas, é sim. A simples presença do smartphone sobre a mesa — mesmo desligado — já é suficiente para reduzir a capacidade cognitiva disponível, segundo estudos da Universidade do Texas. O cérebro consome recursos apenas para resistir ao impulso de verificar a tela.

No contexto de um evento corporativo, essa fragmentação da atenção tem impacto direto: palestras não absorvidas, conexões superficiais durante o networking, decisões tomadas sem plena assimilação do conteúdo apresentado. Quando o objetivo de um evento B2B é gerar transformação — seja de mindset, de pipeline comercial ou de cultura organizacional —, cada minuto de distração tem custo real.

Pesquisa da Eventbrite aponta que o excesso de tempo de tela está afetando as pessoas: 25% relatam sentir-se sobrecarregadas, 22% sentem ansiedade, e em média 70% do tempo gasto online leva à solidão em vez de conexão autêntica.

Esses números têm peso especial no universo de eventos corporativos, onde a conexão entre pessoas é frequentemente o principal ativo entregue.

O que funciona lá fora nem sempre funciona aqui

Aqui é preciso fazer uma pausa importante: nem toda tendência internacional se transplanta diretamente para a realidade brasileira — e isso vale especialmente para eventos corporativos B2B.

No Brasil, o celular exerce um papel ainda mais central na dinâmica profissional do que em mercados como o americano ou o europeu. Aplicativos de mensagens são canais primários de decisão empresarial. Aprovações acontecem via WhatsApp. Contratos são discutidos em grupos. Negócios são fechados em mensagens de voz. Propor que um executivo brasileiro fique completamente desconectado por quatro ou oito horas durante um evento corporativo é, em muitos contextos, simplesmente inviável do ponto de vista operacional — e pode gerar mais ansiedade do que presença.

Além disso, há uma questão de cultura de participação: em eventos B2B no Brasil, o celular também é usado de forma legítima para registrar slides, fazer anotações rápidas, compartilhar conteúdo em tempo real no LinkedIn e manter a rede aquecida. Eliminar isso de forma indiscriminada pode significar tirar ferramentas de produtividade de quem está genuinamente engajado.

Isso não invalida a tendência — significa que ela precisa ser adaptada com inteligência.

O real aprendizado: não banir o celular, mas redesenhar a relação com ele

O grande insight que os eventos sem celular trazem não é necessariamente “proíba o smartphone”. É: o design do evento precisa competir com a tela — e vencer.

Se os participantes estão no celular durante uma palestra, o problema raramente é o celular. É a palestra. Se estão scrollando durante o networking, o problema é o formato do networking. O celular é um sintoma; a atenção é o diagnóstico.

Para eventos corporativos e B2B, a abordagem mais eficaz não é a restrição total, mas sim um conjunto de estratégias que reduzam o uso passivo e distraído, mantendo o uso intencional e produtivo. Aqui estão algumas práticas que podem ser adaptadas ao contexto nacional:

1. Zonas de presença intencional

Em vez de proibir o celular em todo o evento, crie momentos ou espaços designados como “zonas de presença”. Pode ser a palestra principal, uma dinâmica de grupo ou um jantar de encerramento. Comunique com antecedência e enquadre como um benefício, não como uma restrição: “neste momento, pedimos que deixemos as telas de lado para aproveitar ao máximo a experiência.”

2. Abertura com contrato de atenção

No início do evento, o facilitador ou MC pode fazer um “contrato de atenção” com a plateia — um convite explícito para que, durante determinados momentos, o grupo escolha estar presente. Essa abordagem respeita a autonomia dos participantes e ainda assim cria uma norma social compartilhada.

3. Programação que concorre com a tela

Invista em formatos que naturalmente tornem o celular irrelevante: dinâmicas participativas, sessões de co-criação, experiências sensoriais, momentos de surpresa. Como apontou uma especialista em eventos imersivos, “a chave é desenhar para a presença, não para a ausência de celulares”. Os eventos sem celular mais bem-sucedidos são imersivos, não restritivos.

4. Designação de momentos de captura

Em vez de deixar a captura de conteúdo acontecer de forma aleatória e contínua, planeje momentos específicos para isso — um espaço de fotos ao início, um momento de “compartilhe o que você aprendeu” ao final. Isso canaliza o impulso de documentar para momentos que não competem com a experiência.

5. Comunicação prévia clara e motivada

A lição dos eventos sem celular que funcionaram é clara: o maior preditor de sucesso de um evento sem celular é o quão bem os participantes são preparados antes de chegar. Pessoas reagem mal a surpresas, não a políticas. Comunicar com antecedência o que vão experienciar e o raciocínio por trás da decisão da marca os traz para o propósito.

6. Entregas físicas como âncoras de presença

Materiais táteis — cadernos, mapas do evento, kits de experiência — criam um contraponto físico ao digital e sinalizam que o evento foi pensado para ser vivido, não apenas assistido. Não por acaso, a ativação da Pinterest no Coachella era repleta de elementos físicos: estações de criação de charms, retoques de beleza, “Joy Guides” impressos. Tudo desenhado para estimular a presença em vez do registro.

Quando eventos sem celular podem, sim, fazer sentido no B2B

Dito tudo isso, há contextos em que a política mais restritiva faz sentido mesmo no Brasil corporativo. Alguns exemplos:

Retiros de liderança e offsite executivos: quando o objetivo é desconexão genuína, reflexão estratégica e fortalecimento de vínculos entre líderes, a ausência de dispositivos pode ser um facilitador poderoso — especialmente se o evento for de um a dois dias em ambiente fora do escritório.

Workshops de inovação e design thinking: dinâmicas de co-criação exigem atenção total e presença cognitiva. Um celular na mesa fragmenta exatamente o tipo de pensamento que o formato pretende estimular.

Eventos de alto impacto emocional: lançamentos culturais internos, momentos de reconhecimento, cerimônias de encerramento de ciclo. Nesses contextos, o celular pode tirar as pessoas do momento que a empresa investiu em criar.

Jantares e experiências de relacionamento B2B: quando o objetivo é construir confiança entre clientes e parceiros de negócio, a qualidade da conversa supera qualquer conteúdo capturado para o feed.

Especialistas do setor apontam que os ambientes onde o valor realmente vive são aqueles “onde as pessoas são encorajadas a explorar, descobrir e conectar”. Em eventos onde a conectividade contínua é necessária, formatos totalmente sem celular são mais difíceis de executar — mas versões parciais são sempre possíveis.

O que a sua marca quer comunicar com essa escolha?

Por fim, há uma dimensão estratégica que vai além da operação do evento. Uma política de eventos sem celular — mesmo que parcial — é um posicionamento de marca.

Ela diz: valorizamos a sua atenção. Valorizamos o que acontece nesta sala. Construímos algo que merece ser vivido, não apenas documentado.

No universo B2B, onde a disputa pela atenção dos decisores é cada vez mais feroz, isso é uma vantagem competitiva concreta.

A tendência dos eventos sem celular não precisa ser copiada integralmente para ser útil. Ela carrega um princípio que todo produtor e estrategista de eventos corporativos deveria internalizar: presença é o novo luxo — e o evento que consegue entregá-la sai na frente.

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