Mais conexão, menos espetáculo: networking ganha protagonismo nos eventos presenciais, aponta pesquisa
Durante anos, a indústria de eventos apostou em um princípio quase incontestável: quanto maior a produção, maior o impacto. Cenografias grandiosas, efeitos audiovisuais, palcos imersivos e experiências visualmente impressionantes dominaram o setor como símbolos de relevância e valor percebido.
Mas uma nova pesquisa internacional mostra que o público passou a buscar outra coisa — e talvez muito mais simples: conexão humana real.
O relatório The Experience Design Report, desenvolvido pela Encore em parceria com a Boldpush, ouviu 447 profissionais do setor de eventos da América do Norte e Europa para entender quais elementos realmente constroem experiências memoráveis. E os resultados revelam uma mudança importante no comportamento do participante.
A conclusão mais simbólica do estudo é clara: conversas presenciais e networking estruturado geram quase três vezes mais confiança do que a qualidade da produção do evento.
Mais do que uma tendência, isso aponta para uma mudança de lógica no design de experiências.
O público não quer mais apenas assistir. Quer participar.
O estudo mostra que 49% dos profissionais consideram o networking entre participantes o principal objetivo de um evento — superando conteúdo (43%) e entretenimento (8%).
O problema é que a programação ainda não acompanha essa prioridade.
A maior parte dos organizadores dedica apenas entre 11% e 25% da agenda para momentos estruturados de conexão. Apenas 8,1% afirmam que mais da metade da programação é desenhada especificamente para networking e interação entre participantes.
Na prática, o setor ainda depende fortemente do chamado “networking orgânico”: encontros improvisados nos corredores, coffee breaks, filas e intervalos.
Mas existe um detalhe importante nisso tudo: conexões relevantes raramente acontecem por acaso.
Quando o networking não é planejado, facilitado e incentivado pelo próprio design do evento, ele vira uma consequência eventual — e não uma entrega estratégica.
Talvez esse seja hoje um dos maiores gaps do mercado: entender que networking não é um intervalo da programação. Ele é a programação.
O que realmente gera confiança em um evento?
Um dos trechos mais interessantes do relatório analisa quais fatores mais fortalecem a relação de confiança entre participante e organizador.
O ranking chama atenção:
- 72% apontam conversas presenciais de networking como principal fator de confiança;
- 62% destacam experiências compartilhadas entre pares;
- 47% valorizam momentos espontâneos e não roteirizados dos palestrantes;
- Apenas 25% citam produção e qualidade do venue como fator principal.
Os dados não diminuem a importância da produção. Ela continua sendo fundamental para fluidez, percepção de valor e experiência sensorial. Mas o estudo sugere algo importante: produção impressiona; conexão permanece.
Em outras palavras, o que o público leva consigo não é necessariamente o LED do palco ou o efeito de abertura. São as conversas que aconteceram depois da palestra. O contato trocado. A troca genuína. O insight compartilhado com alguém que vive o mesmo desafio.
Esse movimento ajuda a explicar por que tantos eventos vêm reposicionando seus formatos nos últimos anos.
O modelo “palco + plateia” começa a perder força
O relatório também reforça uma transformação silenciosa no consumo de conteúdo ao vivo.
Formatos mais colaborativos e participativos aparecem entre os mais bem avaliados pelos participantes:
- Roundtables lideram em satisfação com 26,4%;
- Workshops aparecem logo depois, com 20,8%.
Enquanto isso, os keynotes tradicionais perdem protagonismo. Quase metade dos respondentes (47,7%) afirma que o palestrante principal não é determinante na decisão de inscrição.
Isso não significa o fim das palestras magnas. Mas indica que o público passou a valorizar menos a comunicação unilateral e mais os ambientes onde pode interagir, trocar experiências e participar ativamente.
O próprio mercado já começa a responder a isso:
- 28,4% dos organizadores reduziram a duração das palestras para menos de 30 minutos;
- 23,7% passaram a utilizar múltiplos speakers em vez de apresentações individuais.
Existe uma lógica clara por trás dessa mudança: a atenção hoje é construída pela dinâmica, não apenas pela autoridade.
O networking deixou de ser acessório para virar estratégia
Durante muito tempo, networking era tratado como algo secundário dentro da experiência. Um benefício “natural” do encontro presencial.
Agora, ele passa a ocupar uma posição mais estratégica — especialmente em um cenário onde boa parte do conteúdo já pode ser consumido online.
Isso muda completamente o papel do evento presencial.
Se antes a principal função era transmitir informação, agora ela passa a ser criar ambientes de relacionamento, pertencimento e confiança.
É justamente isso que torna os encontros presenciais ainda relevantes em uma era hiperconectada digitalmente.
Quanto mais o conteúdo se democratiza online, mais valiosas se tornam as interações humanas difíceis de replicar virtualmente.
Personalização ainda está longe do discurso
Outro ponto relevante do estudo mostra que o setor ainda enfrenta dificuldades para transformar personalização em prática real.
Segundo o relatório:
- 34% oferecem apenas personalizações básicas, como restrições alimentares e acessibilidade;
- 18,6% admitem entregar praticamente o mínimo necessário;
- Apenas 2,5% criam jornadas altamente personalizadas com apoio de inteligência artificial.
Embora a IA já esteja começando a transformar eventos, o uso ainda parece concentrado em operações e automações — e não necessariamente na construção de experiências individualizadas.
Existe aqui uma oportunidade importante: utilizar tecnologia não apenas para eficiência, mas para aproximar pessoas certas, sugerir conexões relevantes e criar experiências mais contextualizadas.
Porque personalização, no fim, não significa apenas chamar alguém pelo nome em um aplicativo. Significa fazer o participante sentir que aquele evento foi pensado para ele.
O Novo Mindset do Organizador
O The Experience Design Report deixa um recado claro: o desafio do setor não é falta de intenção, é falta de design. Eventos memoráveis não são mais os que gastam mais em pirotecnia, mas os que investem na arquitetura de relacionamentos.
O networking deixou de ser um benefício colateral para se tornar o núcleo da estratégia. Em um mundo digital onde o conteúdo é commodity, a interação humana de qualidade é o maior ativo de luxo de um evento presencial.
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