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15 de junho de 2026

Por que implementar práticas ESG ainda é um desafio no mercado de eventos brasileiro?

O setor de eventos vive um dos momentos mais relevantes da sua história. Segundo o III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil, o segmento movimentou mais de R$ 813 bilhões em 2024, representando 4,6% do PIB nacional e gerando milhões de empregos. Ao mesmo tempo, cresce a pressão de marcas, patrocinadores, participantes e investidores por eventos mais responsáveis, transparentes e sustentáveis.

Nesse cenário, implementar práticas ESG deixou de ser apenas uma tendência para se tornar uma demanda estratégica do mercado. Ainda assim, transformar discurso em ação continua sendo um dos maiores desafios da indústria de eventos brasileira.

Uma pesquisa apresentada no III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil revelou os principais obstáculos enfrentados pelos espaços e organizadores na implementação de práticas ESG. Entre eles, aparecem fatores estruturais como “capex elevado”, “fragmentação da cadeia”, “gap de capacitação”, “falta de métricas precisas”, “inércia cultural”, “escassez de fornecedores homologados” e “dificuldade em mensurar o impacto social”.

Mais do que barreiras isoladas, esses fatores revelam um mercado em transição — pressionado por novas exigências, mas ainda enfrentando limitações operacionais, financeiras e culturais.

A maturidade ESG no setor ainda é desigual

Embora o tema esteja cada vez mais presente nas estratégias corporativas, a adoção de práticas ESG ainda acontece de forma desigual no mercado de eventos brasileiro.

Grandes empresas e espaços estruturados já avançam em iniciativas como gestão de resíduos, acessibilidade, eficiência energética, diversidade nas equipes, governança de fornecedores e redução de impactos ambientais. O próprio III Dimensionamento mostra que 76,3% dos espaços de eventos já adotam programas de gestão de resíduos e 57,2% incentivam o uso de materiais mais sustentáveis.

Por outro lado, boa parte da cadeia produtiva ainda enfrenta dificuldades para implementar práticas ESG de forma consistente e integrada.

Isso acontece porque o setor de eventos possui uma característica muito específica: ele depende de uma cadeia extensa e altamente fragmentada, envolvendo montadoras, cenografia, audiovisual, alimentação, limpeza, transporte, logística, segurança, fornecedores temporários e profissionais freelancers.

Na prática, basta um elo da operação não acompanhar as exigências ESG para comprometer toda a experiência sustentável do evento.

Fragmentação da cadeia dificulta a padronização

A “fragmentação da cadeia” apareceu como um dos principais desafios identificados pela pesquisa — e isso faz sentido.

Eventos são operações temporárias e multifornecedores. Cada projeto reúne empresas diferentes, equipes terceirizadas e parceiros contratados especificamente para aquela entrega.

Esse modelo dificulta:

  • a criação de padrões ESG unificados;
  • o controle sobre fornecedores;
  • a rastreabilidade de materiais;
  • a mensuração de impactos ambientais e sociais;
  • a implementação de políticas contínuas.

Além disso, muitos fornecedores ainda operam sem certificações, processos estruturados ou indicadores claros de sustentabilidade.

A própria pesquisa aponta a “escassez de fornecedores homologados” como um gargalo relevante para o avanço das práticas ESG no setor.

Em muitos casos, organizadores até desejam realizar eventos mais sustentáveis, mas encontram dificuldade em contratar parceiros alinhados aos mesmos critérios.

Capex elevado ainda é uma barreira importante

Outro ponto frequentemente citado é o “capex elevado” — ou seja, o alto investimento inicial necessário para implementar determinadas práticas ESG.

Muitas mudanças exigem:

  • atualização de infraestrutura;
  • aquisição de equipamentos mais eficientes;
  • gestão inteligente de energia;
  • digitalização de processos;
  • treinamentos;
  • consultorias especializadas;
  • certificações;
  • tecnologias de mensuração de impacto.

Para empresas de pequeno e médio porte, isso ainda representa um custo difícil de absorver.

O III Dimensionamento também aponta que o alto custo para implementar práticas ESG é um dos principais desafios enfrentados especialmente por pequenas empresas da cadeia de eventos.

Existe ainda uma visão equivocada de que práticas ESG necessariamente aumentam custos, quando, na realidade, muitas iniciativas geram eficiência operacional, redução de desperdício e fortalecimento reputacional no médio prazo.

Mas essa percepção de retorno nem sempre é imediata — especialmente em um mercado pressionado por margens apertadas e alta competitividade.

Falta de métricas precisas dificulta decisões

Outro grande desafio é a “falta de métricas precisas”.

Muitas empresas ainda não conseguem medir:

  • emissão de carbono;
  • geração de resíduos;
  • impacto econômico local;
  • impacto social;
  • diversidade nas equipes;
  • inclusão;
  • acessibilidade;
  • consumo energético;
  • legado do evento.

Sem indicadores claros, fica difícil comprovar resultados, justificar investimentos e construir estratégias ESG de longo prazo.

A dificuldade em mensurar impacto social também apareceu entre os principais obstáculos destacados pela pesquisa do setor.

Isso revela um problema importante: muitas empresas até realizam ações sustentáveis pontuais, mas não possuem estrutura para monitorar resultados concretos.

Sem dados, as práticas ESG acabam ficando restritas ao discurso ou a ações isoladas de marketing.

O gap de capacitação ainda limita o avanço

A pesquisa também destaca o “gap de capacitação” e a “falta de conhecimento técnico para executar as mudanças”.

Esse talvez seja um dos pontos mais críticos.

O ESG exige competências multidisciplinares:

  • gestão ambiental;
  • compliance;
  • governança;
  • diversidade;
  • acessibilidade;
  • indicadores;
  • cadeia de fornecedores;
  • impacto social;
  • relatórios;
  • comunicação transparente.

Mas boa parte do mercado de eventos ainda não teve acesso a formação estruturada sobre esses temas.

Além disso, o setor possui forte dependência de mão de obra temporária e operação acelerada, o que dificulta treinamentos contínuos.

O próprio III Dimensionamento aponta a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada como um dos principais desafios do setor atualmente.

Sem capacitação adequada, implementar práticas ESG de maneira consistente se torna muito mais complexo.

A inércia cultural ainda pesa

A “inércia cultural” também apareceu entre os principais obstáculos identificados pela pesquisa — e ela talvez seja uma das barreiras mais silenciosas.

Durante décadas, o setor de eventos operou com foco prioritário em entrega, experiência e custo.

Agora, o mercado começa a exigir também:

  • responsabilidade ambiental;
  • diversidade;
  • impacto social;
  • governança;
  • transparência;
  • rastreabilidade;
  • acessibilidade;

Essa mudança exige transformação cultural.

E mudanças culturais não acontecem rapidamente.

Ainda existe resistência por parte de empresas que enxergam práticas ESG como burocracia, tendência passageira ou custo adicional.

Em alguns casos, o ESG ainda é tratado apenas como posicionamento de marca, sem integração real à operação.

Discussões sobre o tema em comunidades profissionais também mostram certa desconfiança sobre iniciativas superficiais de ESG e o chamado “greenwashing”.

Isso reforça a necessidade de práticas ESG genuínas, mensuráveis e integradas ao negócio.

A infraestrutura brasileira também impacta o avanço ESG

O desafio das práticas ESG no mercado de eventos brasileiro não depende apenas das empresas.

Questões estruturais do país também influenciam diretamente:

  • logística;
  • transporte;
  • matriz energética regional;
  • gestão pública de resíduos;
  • mobilidade urbana;
  • infraestrutura de destinos;
  • informalidade;
  • desigualdade regional.

A própria pesquisa cita fatores como “dependência de matriz energética fóssil”, “barreira de demanda” e “dividida pandêmica” entre os obstáculos percebidos pelo setor.

Além disso, debates públicos sobre infraestrutura em eventos mostram como ainda existem diferenças relevantes entre regiões brasileiras em capacidade operacional e estrutura urbana.

Isso impacta diretamente a viabilidade de determinadas práticas ESG em diferentes localidades.

O mercado, porém, caminha para uma exigência inevitável

Apesar dos desafios, o avanço das práticas ESG no setor de eventos parece irreversível.

O próprio III Dimensionamento mostra que sustentabilidade já começa a se tornar um critério de decisão para patrocinadores, marcas e participantes.

Empresas contratantes estão cada vez mais exigentes em relação a:

  • diversidade;
  • acessibilidade;
  • gestão de resíduos;
  • neutralização de carbono;
  • fornecedores responsáveis;
  • compliance;
  • impacto social;
  • transparência operacional.

Além disso, o público passou a valorizar experiências mais conscientes, humanas e alinhadas a propósito.

Esse movimento não acontece apenas por responsabilidade ambiental, mas também por competitividade.

Eventos que incorporam práticas ESG de forma estratégica tendem a fortalecer reputação, atrair patrocinadores, gerar diferenciação de marca e aumentar valor percebido.

ESG no setor de eventos não é mais diferencial — é evolução de mercado

Implementar práticas ESG no mercado de eventos brasileiro ainda é desafiador porque envolve transformação estrutural, investimento, capacitação, mudança cultural e integração de uma cadeia extremamente complexa.

Mas o avanço já começou.

Os dados do III Dimensionamento mostram um setor em crescimento, mais profissionalizado e pressionado por novas demandas de sustentabilidade, governança e impacto social.

A tendência é que, nos próximos anos, práticas ESG deixem de ser vistas apenas como iniciativas opcionais e passem a ocupar posição central nas estratégias de eventos corporativos, feiras, congressos e experiências de marca.

Mais do que acompanhar uma tendência, o desafio do setor agora é transformar ESG em prática operacional real — com consistência, métricas, transparência e legado.

Veja mais em:

  • Gestão e Estratégia

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